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Mecanismos de defesa na Psicanálise

Por que o psicanalista não me diz o que fazer?

É bastante comum, principalmente no início do processo de análise, ter a sensação de que o psicanalista faz perguntas e mais perguntas, sem dizer o que de fato está pesando ou dar uma orientação sobre o que deve ser feito. Uma das respostas para isso está em um conceito central da Psicanálise: os mecanismos de defesa, termo que se tornou bastante popular, mas que requer certas explicações.


O que são mecanismos de defesa?

Primeiramente, é preciso recordar que o principal objetivo das sessões de análise é acessar conteúdos que estão inconscientes para poder integrá-los. Ou seja, o foco é conhecer a causa do sofrimento para trabalhá-la, até que deixe de ser um problema.

Nossa mente, por outro lado, possui um certo caráter inercial. Por isso, o que está escondido no inconsciente “quer permanecer” assim. Afinal, muito provavelmente, se algo foi afastado da consciência, é porque, de alguma forma, esse conteúdo gera conflitos com o Eu e a personalidade.

Por exemplo, uma pessoa tem um certo desejo, mas aprendeu desde cedo que isso é mal ou imoral. Então, sempre que essa vontade ressurge, ela se esforça para afastá-la de sua mente, pois não pode admitir que deseja algo assim. Esse esforço, portanto, que fazemos para que certos conteúdos permaneçam no inconsciente, isto é, fora da mente consciente, é chamado de mecanismo de defesa.

Inconsciente, defesas, processo de análise.

Os mecanismos de defesa são inconscientes

Quando pensamos na palavra “esforço”, é comum acreditarmos que se trata de algo que provém de nossa vontade. Ao contrário, os mecanismos de defesa são também inconscientes. Ou seja, esforçamo-nos para proteger nosso inconsciente sem nos darmos conta do que estamos fazendo.

É justamente devido ao fato de os mecanismos de defesa serem inconscientes que o psicanalista tende a evitar dizer certas coisas em determinados momentos, mesmo que já tenha uma hipótese bem fundamentada. Muitos pacientes, bem-intencionados, costumam dizer frases como: “eu sou maduro”; “estou disposto a mudar”; “gostaria de ouvir sua opinião”; “confio em você para me orientar”.

De forma alguma essas pessoas estão mentindo; pelo contrário, costumam estar verdadeiramente dispostas e abertas ao processo analítico. Entretanto, como os mecanismos de defesa são inconscientes, são acionados apesar da vontade do paciente de ouvir e evoluir nesse processo.Nesse sentido, o papel do analista é, principalmente, o de fazer as perguntas corretas, que levem cada paciente a quase chegar à resposta por conta própria. Nesse momento, quando a pessoa está quase acessando um conteúdo inconsciente, o analista pode dar um “empurrãozinho” final e, então, ajudá-la a processá-lo e integrá-lo.


Você tem mecanismos de defesa?

Todos apresentamos mecanismos de defesa, em maior ou menor grau. Afinal, como dissemos, esta é uma forma normal de nossa mente se proteger. Isso, portanto, não é nenhuma vergonha ou demérito. Saber, por outro lado, quais são os principais mecanismos pode nos ajudar a reconhecê-los em nossos próprios comportamentos e favorecer nossa autoanálise.


Conheça os principais mecanismos de defesa:


  1. Negação

Este talvez seja o mecanismo de defesa mais conhecido. Trata-se da recusa em admitir certo conteúdo por ser muito doloroso ou conflitante.

Seu exemplo mais clássico ocorre durante o período inicial do luto. Nesse sentido, muitas pessoas que já sofreram uma perda sabem que, no início, é comum termos a sensação de que estamos sonhando, como se fôssemos despertar ou o ente querido fosse voltar de repente, e não passaria de um terrível engano. Aqui está a negação: nossa mente recusa-se, ainda que forma inconsciente, a conceber tal fatalidade. Isso é perfeitamente normal e faz parte do processo de luto.

Vale ressaltar que cada pessoa tem um tempo e uma forma para elaborar e integrar a perda, e muitas vezes é necessária a ajuda de um profissional para lidar com esse momento.


  1. Repressão

Ainda que seja um pouco parecida com a negação, a repressão se diferencia principalmente pelo movimento de afastar algo da mente consciente.

Isso ocorre, por exemplo, quando certo aspecto de quem somos não condiz com nossa personalidade, isto é, com quem queremos ser e com como queremos ser vistos pelos demais. Como já mencionado, essa defesa se ativa principalmente em relação a certos desejos considerados inaceitáveis, o que costuma gerar alguns sintomas, como medo, angústia e compulsões.

Em alguns casos, a repressão também pode estar relacionada a eventos traumáticos ou memórias difíceis que nos esforçamos para esquecer, justamente para não reviver essas situações, mas, ainda assim, isso influencia nossas emoções e comportamentos e costuma causar, principalmente, uma tristeza cuja causa desconhecemos.


  1. Formação reativa

Como seu nome diz, este mecanismo de defesa consiste em uma reação inconsciente, numa tentativa de reparar algo. Aqui, é comum tomarmos uma atitude contrária para que certo conteúdo permaneça inconsciente.

Os casos dessa defesa são diversos. Por exemplo:

  • Pessoas tímidas podem parecer bastante expansivas e sociáveis e tender a falar bastante, até mesmo de forma inconveniente.

  • Pessoas irritadas e explosivas podem, a princípio, parecer extremamente mansas e meigas.

  • Um certo desejo reprimido pode gerar, em algumas pessoas, a adoção de um estilo de vida que o impossibilite de ser realizado. Por exemplo, uma pessoa com um certo desejo sexual pode evitar relacionar-se com qualquer pessoa.


  1. Anulação

Parecida com a formação reativa, a anulação busca apagar algo que aconteceu.

Os exemplos aqui também são diversos:

  • Alguém que foi rude ou teve uma reação assertiva pode tornar-se meigo e bajulador, em uma tentativa inconsciente de anular a atitude anterior.

  • É comum que, após episódios de compulsão, algumas pessoas apresentem períodos de abstinência.

  • Certas pessoas criam um tipo de ritual, que geralmente parece supersticioso; por exemplo, sempre que algo ocorre, dizem uma certa palavra ou realizam um gesto específico.


  1. Isolamento

Não se trata aqui de o indivíduo se isolar, mas de separar um certo conteúdo de seu contexto, principalmente esvaziando-o de sua carga emocional, para que aquilo não o afete.

Por exemplo, uma pessoa pode narrar um fato atípico e extremamente doloroso que lhe ocorreu sem reviver a carga emocional do evento.

Esse mecanismo pode ainda aparecer em conjunto com outras defesas, como a formação reativa e a anulação. Nesses casos, após relatar algo triste, a pessoa pode fazer uma piada, rir ou executar algum gesto apaziguador, bem como qualquer atitude não condizente com o sentimento do que acabara de dizer.


  1. Racionalização

Semelhante ao isolamento, a racionalização é uma forma de destituir a carga afetiva de certo conteúdo e também de, em certa medida, justificá-lo por meio da retórica e da lógica.

Por exemplo:

  • Alguém que, em algum momento, sentiu-se negligenciado ou mesmo agredido por outra pessoa pode buscar justificar tal atitude por meio de afirmações como: “ela não pode estar comigo porque tinha outras prioridades”; “ela agiu assim porque não teve outra escolha”; “eu mesmo não sou fácil de lidar”; etc. É importante saber que tais afirmações nem sempre são necessariamente uma mentira que contamos a nós mesmos. De fato, muitas vezes, sabemos que essas “explicações” condizem com a realidade. No entanto, não é porque algo possui uma explicação ou justificativa que não nos afete ou que não seja necessário trabalhá-lo.

  • Uma pessoa também pode tentar explicar suas próprias ações, sentimentos, emoções e desejos por meio de um discurso lógico e atenuado, como: “fiz aquilo porque havia bebido”; “eu estava carente naquele momento, por isso me entreguei rápido”; “ajo assim por causa da minha personalidade, do meu signo, do meu gênio forte…”. É inegável a importância de buscarmos as causas daquilo que sentimos e fazemos, mas é fundamental também compreender até que ponto isso está servindo para a reelaboração e até que ponto se torna um subterfúgio para justificar a permanência no mesmo estado.


  1. Deslocamento

Este mecanismo de defesa é também muito comum. Por meio dele, deslocamos um certo conflito para outros objetos, geralmente menos ameaçadores, os quais podemos enfrentar, como numa tentativa de descontar o que sofremos.

Os exemplos aqui também são diversos e cotidianos:

  • Crianças que vivem em um ambiente familiar violento podem buscar, na escola, colegas mais frágeis para praticar bullying

  • Algo semelhante com o que observamos nas crianças pode também ocorrer com adultos, por exemplo, quando somos rudes com amigos e familiares no momento em que estamos estressados com outros problemas, principalmente quando nos sentimos injustiçados por alguém que ocupa uma posição superior à nossa, como um chefe ou professor.

  • Às vezes, estamos estressados com diversas situações, como família, trabalho e estudos; geralmente questões complexas e que exigem ações multifatoriais para que sejam solucionadas. Então, desequilibramo-nos com algo trivial, como se aquele pequeno desalinhamento fosse uma grande questão, o que é comumente chamado de “fazer tempestade em copo d’água”. Na realidade, aquele problema é ínfimo e fácil de resolver; por isso, deslocamos para ele todas as nossas frustrações.


  1. Projeção

Aqui, projetamos nossos conflitos e frustrações em outras pessoas como uma forma de nos isentarmos daquilo que nos incomoda, como quem diz: “isso não me pertence”.

Por exemplo, é comum que algumas pessoas atribuam seus sentimentos, emoções e ações a outras, dizendo: “aquela pessoa é melancólica e me deixa triste”; “eu não tolero aquilo naquela pessoa”. Sem dúvidas, para preservar nossa saúde mental, em alguns casos, é preciso que nos afastemos de certas pessoas e relações. Contudo, valem algumas reflexões, tais como:

  • Por que essa pessoa me afeta tanto com seu modo de ser?

  • O que pode haver nela que tenho negado em mim?

  • Será que ela é tudo isso ou estou buscando qualidades negativas nela?

  • Por que, para mim, essas qualidades são tão negativas?


  1. Identificação

Este mecanismo de defesa parece o oposto da projeção. Por meio dele, desenvolvemos uma identificação inconsciente com certas pessoas e passamos a repetir seus comportamentos.

Seu exemplo mais comum é a identificação que costuma ocorrer com uma das figuras parentais, o que costuma influenciar, principalmente, nossos próprios relacionamentos românticos e a estrutura familiar que construímos. É importante ressaltar aqui que não se trata de culpabilizar os pais pela forma como nos comportamos, mas reconhecer que, muitas vezes, repetimos aquilo que conhecemos e internalizamos. Portanto, conhecer essa origem é fundamental para que possamos reelaborar esses conteúdos e dar-lhes um novo significado.


  1. Regressão

Como seu nome diz, por meio desse mecanismo de defesa, regredimos a estágios anteriores do desenvolvimento, principalmente em momentos de grande estresse, como uma tentativa de nos protegermos diante dessa nova situação.

Por exemplo:

  • Quando nasce um irmão, é comum que o mais velho passe a apresentar certos comportamentos que já havia abandonado, como chorar, usar chupeta, querer dormir com os pais, precisar de fraldas, pronunciar mal palavras que já conhecia, entre outros.

  • Em adultos, o mesmo também ocorre, mas, geralmente, de forma mais sutil, como tornar-se teimoso e emotivo, com dificuldade para lidar com críticas e emoções; retornar a hábitos antigos, muitas vezes alegando nostalgia, por exemplo, frequentar ambientes que já havia deixado, retomar as roupas e o estilo, voltar a ouvir as antigas músicas, entre outros. De forma geral, a pessoa passa a se comportar como se voltasse ao passado, mas, em muitos casos, não se dá conta de que está fazendo isso para se proteger em um momento difícil, que costuma estar associado a uma perda ou mudança.


  1. Sublimação

Este, por fim, é o mecanismo mais almejado na análise. Por meio da sublimação, o indivíduo pode direcionar seus desejos e sua energia a atividades saudáveis, que promovam sua criatividade e desenvolvimento, por exemplo:

  • Atividades artísticas, como música, teatro, pintura, dança, literatura e manualidades;

  • Esportes e outras atividades físicas que promovam saúde física, relaxamento, alívio de tensões emocionais e autocontrole;

  • Dedicação aos estudos e a atividades intelectuais;

  • Proatividade e empenho de forma equilibrada e satisfatória no trabalho.


Mecanismos de defesa e autoconhecimento

Compreender os mecanismos de defesa é um passo fundamental no processo de autoconhecimento, pois revelam as formas que nossa mente possui para lidar com conflitos e preservar nosso equilíbrio psíquico. No entanto, quando atuam de forma rígida ou excessiva, podem dificultar a elaboração do sofrimento e perdurar seus efeitos.

As sessões e o processo analítico, portanto, tornam-se um espaço para reconhecer esses mecanismos, permitindo que conteúdos inconscientes venham à tona de maneira gradual e segura. Assim, mais do que oferecer respostas prontas, a Psicanálise convida cada indivíduo a construir sua própria compreensão, promovendo mudanças mais profundas.

 
 
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